Sobre Lucia Reis
Vou vencer minhas resistências internas e falar um pouco mais sobre a minha pessoa.
Quando terminei o curso secundário, fui fazer um curso de línguas na Suíça Alemã, em Churwalden, no cantão de Graubunden. Lá me aprimorei em alemão e francês e lá conheci também um sueco com quem acabei me casando.
Fui morar em Stockholm e nessa época trabalhei num banco, o Svenska Handelsbanken, porque aprendi a falar sueco com rapidez. Em três meses já falava sueco fluentemente, porque tenho enorme facilidade para línguas. Falo fluentemente inglês, alemão, francês e espanhol. Falava sueco com fluência também, mas a falta de contato com suecos fez com que esquecesse muito o vocabulário, mas até hoje ainda consigo acompanhar e entender uma conversação em sueco.
Não me adaptei à vida na Suécia, porque os invernos são rigorosos demais. Além do frio cortante, que nos impede de sair de casa, os dias são dominados pela escuridão. Às dez horas da manhã ainda há estrelas no céu e às três horas da tarde a noite começa a cair. No intervalo das dez às três da tarde o dia nunca amanhece realmente, congela no lusco-fusco e vai assim até o anoitecer.
No verão, também é complicado, porque aí nunca anoitece. É sol o dia inteiro. Perde-se um pouco a noção de tempo. Pelo menos, é o que acontecia comigo.
Fora esses problemas climáticos, o país é bastante agradável. O povo é educado, atencioso, os serviços são muito bem organizados e de modo a facilitar a vida do cidadão. Pode-se dizer que a Suécia é um dos países mais avançados do mundo em matéria de infra-estrutura social. O Estado cuida das mães solteiras, cuida dos deficientes físicos, oferece ensino grátis na universidade e os serviços de saúde são exemplares. A limpeza, a ordem e a delicadeza do corpo médico e dos enfermeiros dos hospitais suecos é impressionante.
Para mim, se não fosse o clima, a Suécia seria o paraíso na face da terra; uma prova evidente de que, quando há boa vontade e compreensão dos cidadãos, os serviços públicos podem funcionar e ser melhores até do que a iniciativa privada.
O meu casamento se deteriorou, porque no inverno a depressão me atacava. As sucessivas horas de escuridão me deixavam triste demais. Não havia amor que resistisse.
Fui morar na Alemanha, em Hannover e, como já dominava o idioma, entrei numa escola que preparava para o exame de admissão à universidade, que na Alemanha é chamado de “Abitur”. Meu plano era estudar medicina na Universidade de Goettingen.
Consegui passar no Abitur com notas altas e fui admitida na Universidade de Goettingen, o que foi realmente uma façanha, porque é uma das universidades mais exigentes da Alemanha.
Retornei ao Brasil doze anos depois. Nesse ínterim ocorreu a deposição de Jango pelos militares, que ficaram no poder até 1985. Retornei ao Brasil, na época da ditadura, isto é, em 1970. Não me animei a exercer a medicina. Tratei logo de arrumar um emprego e fui trabalhar, como assistente de Diretoria, numa empresa sueca, a Ericsson, em São Paulo.
À noite freqüentava cursos de arte na Faculdade Armando Álvares Penteado, que ficava próxima do lugar onde morava, e na Escola Brasil 2 Pontos, fundada por artistas ligados ao pintor Wesley Duke Lee. Foi um período muito rico para mim, que sempre sonhei em seguir uma carreira no campo das artes plásticas, mas acabei estudando medicina e depois direito por força das circunstâncias.
Meus trabalhos eram muito apreciados pelo público. Participei de exposições coletivas e fiz duas exposições individuais, em galerias do Rio e de São Paulo, mas abandonei esse caminho, porque não me senti segura para viver só de arte num país como o Brasil. A final nessa época já tinha uma filha, que nasceu na Alemanha, e nunca quis aceitar ajuda financeira de homem algum. Sempre fui uma mulher muito independente e determinada.
Voltei ao Rio de Janeiro e resolvi estudar Direito. Sempre estudava e trabalhava. Durante a época da faculdade trabalhei primeiro, na subsidiária de uma empresa suíça e, depois, na subsidiária de uma empresa britânica do grupo EMI.
Formei-me e atuei num escritório de advocacia de grande porte, no qual desenvolvi o gosto pelo direito tributário e empresarial. Fui convidada para trabalhar como assessora da diretoria de uma estatal e, depois, ingressei numa empresa multinacional. O tempo nessa multinacional proporcionou-me uma vasta experiência no campo do direito empresarial e também uma pós graduação nos Estados Unidos, país pelo qual tenho grande admiração, especialmente pelo povo que é de uma honestidade extraordinária.
Ingressei no serviço público, através de concurso público de provas e títulos, e exerci o cargo de Procuradora da Fazenda Nacional até me aposentar em 06 de outubro de 2005.
Publiquei diversos livros sobre a área de minha especialidade, que é o Direito Tributário, e ingressei também na seara da literatura. Escrevi e publiquei 2 romances: Estrela Aldebaran e Cela Surda e não pretendo parar por aí.
Procuro recuperar o tempo perdido, isto é, o meu sonho de lidar com arte, dedicando-me à filmagem e à fotografia. Continuo a escrever, que é outra atividade que me propociona enorme prazer.
Em síntese, esta é a Lucia Reis e a frase que tem me guiado é: Tentaram, mas não conseguiram destruir minha capacidade de sonhar.
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Escrito por Lúcia Reis, Pente Fino é um blog destinado a investigar as notícias. 








