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  •     17 / 10    
  •     2009    

Soledad no Recife me prendeu

Publicado em: Joinville
Escrito às 14:47 | Link Permanente
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Homem da Meia Noite

Recebi o livro do ilustre pernambucano Uraniano Mota e o devorei em três dias. Há muito tempo uma obra não me prendia tanto. Consegui me sentir na pele do observador que ama platonicamente, digamos assim, a Soledad, jovem paraguaia engajada na vanguarda revolucionária.

A Soledad teve a falta de sorte de se tornar a companheira do cabo Anselmo. Digo falta de sorte, porque ela morreu, tendo sido trucidada pelo grupo do delegado Sergio Paranhos Fleury, ciente que havia sido traída pelo homem com quem conviveu e de quem estava grávida.

Não existe situação mais terrível para uma mulher sensível e íntegra como era a Soledad. Assim a vi, descrita pelas palavras musicais do Uraniano. O Uraniano escreve como se estivesse fazendo música, pelo menos, é assim que vivenciei a leitura de Soledad no Recife.

O cabo Anselmo, com quem a Soledad viveu no Recife, havia se tornado informante do famigerado Delegado Fleury e foi graças às informações que ele transmitiu ao delegado, que se armou a emboscada contra Soledad e seus outros companheiros.

Esse delegado Fleury é uma figura que me causa arrepios. Quando Getúlio Vargas, em sua carta-testamento e Janio Quadros, ao se despedir da presidência, falaram em forças terríveis, inconscientemente ou não, estavam se referindo a forças do mal e o Fleury, enquanto vivo, foi a personificação dessas forças.

Li também o livro do jornalista Percival de Souza que, aliás, publicou uma autobiografia do Fleury (“Autópsia do Medo”), sobre o cabo Anselmo. O Percival de Souza tenta redimir o cabo Anselmo, mostrando-o mais ou menos como vítima das circunstâncias, a fim de amenizar o rótulo de delator, ou Judas.

A impressão que um leitor distante como eu tem é que o Cabo Anselmo deve ter sofrido uma lavagem cerebral qualquer, na época em que esteve sob o domínio do famigerado Fleury. É possível que esse homem tão perverso tenha submetido o Cabo Anselmo a uma espécie de lobotomia, retirando dele o senso ético interior que o filósofo Immanuel Kant denominou “O Imperativo Categórico”, expresso na seguinte frase:

AJA APENAS SEGUNDO A MÁXIMA QUE VOCÊ GOSTARIA DE VER TRANSFORMADA EM LEI UNIVERSAL”.

Traduzindo o princípio kantiano em palavras mais simples, significa que você só deve fazer aos outros o que gostaria que fizessem a você.

Kant não concordava com a doutrina do utilitarismo tão em voga hoje em dia e tão apregoada por extremistas de qualquer facção, segundo a qual, os fins justificam os meios.

Posso estar errada, mas penso que o Cabo Anselmo merece o benefício da dúvida. Se ele estivesse no seu juízo perfeito, se não tivesse sido lobotomizado pelo Fleury, cujos métodos são por demais conhecidos, creio que não teria entregado Soledad nas mãos do inimigo.

Essa impressão de que o cabo Anselmo foi lobotomizado me vem muito do livro do Uraniano Mota, no trecho em que ele compara sua fisionomia com a do homem da Meia Noite, que é um boneco gigantesco do Carnaval do Recife, cujos olhos lembram dois buracos sem vida, semelhantes aos olhos dos lobotomizados. Quem viu os filmes “Frances”, com a grande atriz Jessica Lange, e “Um Estranho no Ninho”, com o formidável Jack Nicholson saberá logo do que estou falando.


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